sábado, 31 de maio de 2014

Desconstrução do tempo ativando a criação de realidades

:: Silvia Malamud :: 
Em nosso universo cultural, a sanidade é vista como uma construção coletiva de realidade compartilhada, como por exemplo, o entendimento que temos sobre o tempo e suas etapas.

O homem da Antiguidade, para sobreviver, teve que inventar o mundo, a realidade e a cultura. Desenvolveu, então, uma ficção, uma construção imaginária que passou a chamar de tempo. Faz eras que inventou essa história da linha do tempo, que até passou a acreditar que se tratava de algo real. Mas seria isso um delírio coletivo? Real?

Podemos observar tanto no cinema, como nas revistas e nas novelas, a continuidade deste tipo de ensinamento sobre o tempo linear. Todos os protótipos históricos de projetos de vida que dão a ilusão da continuidade do tempo como valores, as carreiras, o sistema social, além de aceitar, indica.

O script transmitido pelos pais também podem ser vistos como a primeira trama histórica a ser vivenciada.

"As nossas identidades estão organizadas num espaço temporal que inventa a continuidade de um Eu, mas que nada mais é do que uma sucessão imaginária de eventos que ocorrem em meio a uma série de momentos presentes".

Atualmente, inclusive, existe uma pesquisa antropológica numa tribo indígena onde a construção da realidade está baseada somente no agora. É altamente difícil e, até mesmo inconcebível para nós, compreendermos esse tipo de funcionamento.


Na jornada da ampliação da consciência, porém, a visão desta trama muitas vezes se funde e se confunde até que se perceba que todos os tempos estão presentes ininterruptamente no agora. Nesse precioso momento, ocorre um sentido maior de reconhecimento de si mesmo, em meio a uma nova e inusitada leitura de sensações, cognições e sentimentos. Tudo em relação às descobertas que agora se apresentam.
Simultaneamente, ocorre a associação de tudo o que se está apreendendo com o que já se é. Enfim, transformar-se em um outro ao mesmo tempo em que são integrados aspectos já vivenciados somando-se ainda a um Eu "futuro" que se almeja ser.

Quer queiramos, quer não, somos mutantes por natureza.

A nossa consciência é pontual e se apropria de si mesma a cada instante. A continuidade da mesma ocorre como resultado de uma construção imaginária sobre temporalidade que está inserida na cultura e na história. O tempo, porém, como qualidade objetiva, inexiste.

O desarmamento desta construção cultural, por vezes, pode trazer a sensação de um vácuo quase que insuportável. É quando constatamos que o tempo é uma mera construção cultural no processo da vida, e que o contexto em que estamos inseridos apenas nos dá a ilusão de um filme em movimento.
Nesse delicado momento pode-se ir de encontro com toda a potência da energia da criação.

Na desconstrução da trama da realidade temporal, podemos encontrar a liberdade de uma ação altamente criativa e totalmente lúcida, onde a cultura e a história são utilizadas apenas e tão somente como ferramentas para a nossa expansão. É a possibilidade de se sair do esquema robotizado e finalmente alcançar o começo de tudo, o SER.
Portanto, se em algum momento de sua jornada passar pela experiência da desconstrução dessa trama, não se desespere, observe e aja.
Alguns exemplos de experiências que também revelam a desconstrução do tempo: a sensação do tempo expandido; a percepção de viver uma eternidade num instante (samadi), a exaltação de um triunfo esperado, o orgasmo, um êxtase do sagrado/religioso.

A percepção define o presente que é só espaço; por outro lado, na memória, existe estoque de informações que definem o passado... e você está aqui! Aproveite o seu momento, que é único e que lhe pertence!
Exercícios de como alcançar estes estados de potencia máxima de criação de realidades na desconstrução da trama do tempo acontecem nos encontros pontuais sobre este tema em meu consultório. As estórias vivenciadas parecem ser da ordem do mágico, embora fazemos isso ininterruptamente sem termos a menor consciência. 


Postar um comentário